01 de Janeiro de 2013

Seus pais, Gertrudes da Conceição e Rodrigo Duarte, eram ambos naturais do Cadaval, descendentes de duas conhecidas famílias da região, os Coelho e os Duarte, mas gente humilde.

Amigos e companheiros de brincadeiras desde crianças atingiram a idade adolescente com a amizade transformada em amor. As perspectivas de futuro também nessa altura eram difíceis na aldeia, pelo que decidiram partir para Lisboa à procura de melhores condições de vida. Corria o ano de 1887. Gertrudes já trazia no seu ventre a semente do seu amor e mal chegam à capital casa com Rodrigo na Igreja de Santa Isabel, recebendo dos lábios do padre Santos Farinha a bênção matrimonial.

Rodrigo Duarte era mestre de corte de calçado, tendo arranjado colocação numa sapataria da Rua da Madalena e graças a esse salário consegue alugar uma pequena casa na freguesia de Santa Isabel, num prédio da Travessa de Santa Quitéria. Hoje já não existe: foi demolido para abertura da Avenida Álvares Cabral.

E foi nessa casa que nasceu para o mundo o primeiro filho do casal Duarte, no dia 29 de Fevereiro de 1888,, mas só foi possível registá-lo, por falta de posse, e foi asiim que lhe foi dado, na pia baptismal, o nome de ALFREDO RODRIGO DUARTE, pelo mesmo pároco que havia unido em casamento seus pais, mas três anos depois em 1891, como não era ano bissexto tiveram que adoptar a data de 25, e foi assim que nos registos oficiais consta que nasceu a 25 de Fevereiro de 1891.

Com o acréscimo de responsabilidades e um novo incentivo na sua vida, Rodrigo Duarte pensou em melhorar a sua situação económica e resolveu assim jogar a sua sorte estabelecendo-se por conta própria, com uma oficina de calçado na Rua de São Bento.

A vida decorreu normalmente para a família Duarte, que viu aumentar o seu lar com o nascimento de mais três filhos: o Júlio — que foi também fadista de nomeada —, o Álvaro e a Júlia, todos igualmente baptizados pelo bondoso padre Santos Farinha, na Igreja de Santa Isabel.

O pequeno Alfredo frequenta a escola primária, tendo desde cedo demonstrado uma especial aptidão para a leitura e gramática, repartindo a sua infância pelas brincadeiras no Jardim da Praça das Flores e ajudando seu pai na oficina, durante as férias escolares.

No carnaval quando as cegadas (representações teatrais populares) saíam para a rua, deliciava-se a ouvir os descantes e seguia alegremente as exibições dos actores de rua nas suas digressões pelo bairro, decorando os versos que ouvia. Chegado a casa, logo seus pais se transformavam em plateia, ouvindo com profundo deleite o génio do pequeno Alfredo.

O seu gosto pelo canto é influenciado por sua mãe que, nas descamisadas, nas romarias e nos bailaricos lá da terra, cantava que era uma delícia. No entanto, quer seu pai — que tinha pertencido à banda musical do Cadaval —, quer seu avô materno, José Coelho, transmitiram-lhe fortes influências, especialmente o segundo, que tocava guitarra e cantava fados de improviso.

Já homem feito, sempre que falava de sua mãe, recordava o seu cantar enquanto fazia a lide caseira. De entre os muitos versos populares que a ouvia entoar, um dos mais preferidos, rezava assim:

 

Nasci nas praias do Mar

Ás fúrias do vento irado

Tinha por berço, uma lancha

Por lençol, o Céu estrelado

 

Rodrigo Duarte apercebeu-se de que o seu pequeno Alfredo tinha intuição para a música e queria que o filho aprendesse os rudimentos musicais.

Infelizmente, não viveu o suficiente para ver satisfeitos os seus desejos, porquanto aos 38 anos de idade a morte o ceifou, arrancando-o brutalmente do convívio dos seus entes queridos.

Foi o padre Santos Farinha quem, apesar da avançada idade, integrou o cortejo, a pé (como era hábito na época), que acompanhou o corpo do desditoso Rodrigo Duarte à sua última morada, o cemitério dos Prazeres, revelando a grande amizade que nutria pela família Duarte.

Aquele sarcedote, que seguia de perto o desabrochar do pequeno Alfredo, chegou a sugerir a seus pais, o envio deste para o seminário, pois via no jovem grandes capacidades.

Decorria o ano de 1905 e o pequeno Alfredo, então com 13 anos, profundamente abalado pela perda do pai, viu-se forçado a abandonar os estudos para começar a ganhar a vida, ajudando assim sua mãe a criar os seus irmãos mais jovens. A ida para o seminário ficava também fora de hipótese.

Infelizmente não chegou a haver condições de ter ficado com uma foto do pai.

 

© Vítor Duarte Marceneiro in “Recordar Alfredo Marceneiro”

 

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publicado por Vítor Marceneiro às 19:54
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Busto de Alfredo Marceneiro por Dr. Francisco Faria Pais Busto de Alfredo Marceneiro por Dr. Francisco Faria Pais