20 de Julho de 2014

JÚLIO DUARTE

Como seu irmão Alfredo Duarte «Marceneiro» Júlio Duarte pertenceu a um núcleo de fadistas que sabiam ser fadistas, que cantava o Fado amando-o, merecendo o apreço do público e dos seus colegas.

Nasceu em Lisboa, na Freguesia de Santa Isabel, e é manufactor de calçado. Até casar viveu sempre com a mãe e os seus irmãos, tendo pelo irmão mais velho, o Alfredo, uma admiração muito especial, considerava-o como um pai.

Tinha apenas 14 anos quando começou a cantar o Fado, estreando-se no Centro Republicano Miguel Bombarda, sendo muito solicitado para actuar em academias de recreio, festas de caridade e e actuou em quase todos os retiros da época. Actuou no antigo Teatro Étoile , na calçada da Estrela, fazendo números de variedades com a pequenina actriz Hortense de Castro.

Torna-se profissional em 1928. Cantou-o então, nas cervejarias Boémia, Cervejaria Jansen , Rosa Branca, Chagas, Vitória, Cafés Portugal, Sul-América , Anjos, Julio das Farturas, Solar da Alegria (quando da gerência. de Alberto Costa), Salão Artístico de Fados, teatros Capitólio e Joaquim d'Almeida , nos clubes Tauromáquico, Olímpia, Montanha, Patos, Alhambra, e nos. Cinemas Europa, Jardim-Cinema , Cine Paris e Royal . Percorreu as províncias, cantando nos te­atros de Évora, Barreiro, Seixal, Montijo. Setúbal, Torres Vedras, Malveira, Quinta do Anjo, Torres Novas, Caldas da Rainha, Mafra, Cadaval, Figueira da Foz, Abrigada, Cascais, Estoril, Moita, Parede, Paço d' Arcos, Alenquer, Feliteira, Merceana e Benavente.

Cantou nas casas fidalgas do Conde da Torre e Conde de Sabrosa, nas herdades do opulento lavrador Palha Blanco.

Tal como o seu irmão Alfredo, foi autor de várias músicas para Fados, “Combatentes”, “Crença”, “Fado da Paz”, “Fado da Aldeia” (gravado por Ercília Costa), “Fado Marcha”, “Lágrimas”, (gravado por Maria do Carmo), e ”Fado Luso”.

Da sua carreira de cantador, há uma tarde que Júlio Duarte gravou na memória, por assinalar um dos seus maiores êxitos, foi em Vila Franca de Xira, no Retiro Botão de Rosa, onde cantou ao lado de Júlio Proença, Estanislau Cardoso e João Maria dos Anjos, forma acompanhados pelo guitarrista e cantador Carlos Ramos e á viola por Armando Machado, e também uma cena que se passou nessa altura.Encontravam-se ali dois detractores do Fado, comba­tendo-o grosseiramente. Então, bastante enervado, tanto ele como os seus colegas, começaram a cantar, sendo de tal modo aplaudidos por toda a assistência que enchia a casa, que aqueles tiveram de retirar-se vexados e... ven­cidos. Foi uma tarde de triunfo.

Por último, Júlio Duarte actuava no Retiro da Severa, Solar da Alegria, Cafés Gimnasio, Luso e Mondego, Foi também muito solicitado para actuar na rádio, Emissora Nacional, Rádio Luso, Rádio Graça e Rádio Peninsular.

Cantou muitas vezes com o irmão, que só se profissionalizou mais tarde, embora tendo a fama que se sabe, mas já não assistiu a esse acontecimento, pois faleceu prematuramente.

Júlio Duarte, foi casado com uma fadista de renome na época, Leonor Duarte, de quem teve duas filhas, a Júlia e a Aida.

Júlio Duarte tem no seu repertório as seguintes sextilhas do poeta popular João de Sousa (Bacalhau), que ele cantanva com inexcedível sentimento no “Fado Marcha Pedro Rodrigues”

 

                                         INGENUIDADE

 

Um dia, uma criança
Teve a genial lembrança
Que aqui lhes vou contar:
Muito embora pequenino,
Ele tinha muito tino,
Mas era raro brincar.
                                 Havia no seu quintal
                                 Uma árvore e, por sinal,
                                 Um melro fez lá o ninho...
                                 E lembrou à criancinha,
                                 Com um carrinho de linha,
                                 Trepar lá acima, sozinho.
A mãe bem o procurou,
Porém não o encontrou,
E após tê-lo chamado,
Então, um grito ela ouviu,
O garotinho caiu
Cá em baixo inanimado.
                                  Prestes a deixar o mundo,
                                  O garoto moribundo,
                                  Com a palidez do mármore,
                                  Disse: Não foi pelo ninho,
                                  Foi p'ra salvar o paizinho.
                                  Que subi aquela árvore.
«Ainda me lembro bem
Do doutor ter dito á mãe,
Que com custo a prevenia,
Que, quando as folhas caíssem
E a nossa árvore despissem,
O meu paizinho morria.
 
                                  Por isso levei as linhas,
                                  P´rás prender, bem prendedinhas,
                                  E todas elas atei;
                                  Ele agora já não morre
                                  Anda, vai-lhe dizer, corre,
                                  Que eu morro, mas que o salvei!
 

publicado por Vítor Marceneiro às 21:46
: Somos Raízes do Fado
27 de Junho de 2014

 

 

Francisco Faria Pais ,nasceu em Portalegre.

Veio para a capital e licenciou-se em medicina e cirurgia na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Foi assistente da cadeira de Química Fisiológica da mesma Faculdade.

Dedicou-se  e fez vida profissional na especialidade de Estomatologia ,  tendo sido um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Ortopedia Dento-Facial ,  onde desempenhou os lugares de Secretário Geral , Vice-Presidente  da Direcção e Presidente da Assembleia Geral.

É membro da  Academia Portuguesa da Medicina Dentária.
Há cerca de  quarenta anos que tem como "hobby" a pintura em tela a escultura em cerâmica, tendo já participado em mais de 26 exposições do Norte ao Sul do país.
Executou uma serie de Imagens Marianas em terracota policromada, que apresentou em duas  exposições, fazendo algumas delas parte actualmente do património de algumas Igrejas.
Admirador incondicional da Obra de Rafael Bordalo Pinheiro , dedicou-se a partir duma certa altura , à caricatura em cerâmica , realçando sobre tudo o aspecto gestual e postural das personagens que lhe servem de modelo, pelo que muitas dessas figuras representadas , comportam apenas aspectos  parciais do seu todo.
Adepto fervoroso do Fado, foi casado com  Rosebele Faria Pais, que embora amadora, cantava  muito bem o Fado, que infelizmente já não está entre nós. (http://lisboanoguiness.com/299560.html)

É  com base no Fado, que dedicado grande parte da sua criatividade  de caricaturista , modelando um conjunto de gestos e posturas de figuras de relevo do actual e remoto Fado.

É desde a primeira hora, sócio fundador da Associação Cultural de Fado "O Patriarca do Fado", tendo já e feito e oferecido á associação, duas estatuetas em cerâmica de Alfredo Marceneiro e agora o seu busto em tamanho real.

 

Depoimento sobre a sua obra

 

 

publicado por Vítor Marceneiro às 08:00
: Grande amigo
25 de Junho de 2014

 E DEUS LHE DEU A GRAÇA E A ALEGRIA,  DE TER MORRIDO NA SUA FREGUESIA, COMO UM SOLDADO MORRE NO SEU POSTO

 

 

Alfredo Marceneiro faleceu na sua casa  pelas sete horas da manhã do dia 26 de Junho de 1982, contava 91 anos. (*)
O seu corpo esteve em câmara ardente, na Igreja de Santa Isabel, sendo apostas na urna a Bandeira Nacional e a bandeira da cidade de Lisboa por iniciativa do, então, Presidente da edilidade Engº Krus Abecassis e ainda uma guarda de honra permanente prestada pelos Soldados da Paz do Batalhão de Sapadores Bombeiros de Lisboa.
 O Padre designado para fazer as exéquias do funeral de Alfredo Marceneiro desconhecia de todo a sua obra, mas impressionado com os milhares de pessoas presentes no velório, quis esclarecer-se sobre a sua figura. Levou a noite a escutar o José Pracana e este tão eloquentemente lhe falou do seu querido amigo "Ti Alfredo", que no dia do funeral,  o Padre ao dizer a Missa de Corpo Presente, ele próprio com as lágrimas nos olhos enalteceu a sua imagem de lisboeta e fadista, amante da sua cidade e da sua freguesia E a todos supreendeu, quando recitou os versos que Marceneiro tantas vezes cantou:

 

Alfredo Marceneiro canta:

A Minha Freguesia

 

Se os cantadores todos, hoje em dia
Ruas e bairros cantam, de nomeada
Eu cantarei á minha freguesia
A de Santa Isabel tão afamada

 

Freguesia gentil que não tem par
É talvez de Lisboa, a mais dilecta
De D. Diniz, a rua faz lembrar
O esposo de Isabel o Rei poeta

 

Lembra a Rainha Santa, quando vinha
Transformar o pâo em rosas, com fé tanta
Ela que Santa foi, menos Rainha
Mas foi entre as Rainhas, a mais Santa

 

Poetas e literários, foram seu
Ilustres moradores, geniais
Como Almeida Garrett, João de Deus
Teófilo, Junqueiro e outros mais

 

Freguesia onde enfim, moro também
Onde sempre pisei honrados trilhos
Nela casou a minha querida mãe
E nela é que nasceram os meus filhos

 

Que Deus me dê a graça, a alegria
Na vida tão cheínha, de desgostos
A vir morrer na minha freguesia
Como um soldado morre no seu posto

 

Assim, até na sua morte o Fado acontecia. Cumpriu-se o desejo que Alfredo Marceneiro cantava nos versos escritos pelo poeta Armando Neves.
É de realçar, que não havendo espaço no talhão dos artistas no Cemitério dos Prazeres, a Câmara Municipal de Lisboa, disponibilizou um gavetão perpétuo para repouso dos seus restos mortais.
 Milhares de pessoas acompanharam o cortejo fúnebre que apesar de ser proibido se efectuou a pé, numa sentida manifestação de pesar desde Santa Isabel até ao Cemitério dos Prazeres.   Guitarristas dedilharam os seus instrumentos, durante todo o percurso, " a sua Marcha" em tom dolente e magoado, que mais parecia um choro de guitarras.
O Povo de Campo d´Ourique estendeu colchas nas janelas, numa homenagem singela ao homem simples do seu bairro.

Todos os orgãos de informação se referiram á efeméride, com títulos de destaque.

 (*) 91 anos em termos de registo de nascimento, masa na realidade tinha 94 anos

 

Chorai Fadistas, chorai...
A morte de Alfredo Marceneiro
— A GRANDE LENDA DO FADO
in Diário de Notícias

 

« Ti Alfredo » deixou-nos

Morreu O REI do FADO.

Morreu aquele a quem apelidaram de
—PATRIARCA do FADO

 

Marceneiro morreu, o fado de luto

Morreu Alfredo Marceneiro
— O MONSTRO do FADO

 

Guitarras choraram por Alfredo Marceneiro
in Correio da Manhã

 

Morreu Alfredo Marceneiro...
 O Fado lisboeta está de luto.
in O Dia

 

De todos os jornais diários que se referiram á efeméride  destaco o artigo assinado pelo jornalista e poeta Fernando Peres que foi seu grande amigo e admirador:

 

GUITARRAS CHORAM NO FUNERAL DE MARCENEIRO
in A Capital


"Não sabemos de quem teria sido a ideia mas não é difícil adivinhá-lo: José Pracana tem alma de poeta e uniu-o sempre ao ti Alfredo uma amizade filial. Talvez pela primeira vez, desde a saída do corpo até ao cemitério dos Prazeres, guitarras e violas choraram o que deixa insubstituível um lugar e foi um intérprete ímpar de várias gerações. Apenas melodias suas foram escutadas por gente que se espalhava pelas janelas para assistir ao cortejo enorme e ouvir um coro imenso de vozes de que Alfredo Duarte (o Marceneiro para toda a gente) era autor e andam na boca de toda a gente.
Esta é uma verdade indesmentível. Se reflectirmos, podemos concluir que a vida e a morte constituem os círculos viciosos do tempo.
A hora que se viveu é uma hora morta. Aquilo que hoje é emoção violenta, constitui amanhã, uma sensação esquecida.
Devemos insistir: esta é uma verdade indesmentível pois existe dentro de cada homem uma tragédia que ele ignora e uma comédia que ele vive. Algumas vezes, a tragédia é caricata ridícula, dá vontade de rir. Mas nunca ninguém riu da tragédia que consigo arrasta. É que a dor é um sinal da vida. Na realidade, só vive quem sabe sofrer...
Por isso ti Alfredo não sofre sózinho. Consigo leva um bocadinho do coração de todos nós. Os ídolos do fado são ídolos do povo. E um desses foi esse extraordinário Alfredo Marceneiro, decano dos intérpretes portugueses e, talvez, mundiais. Quase todos choraram quando foi o «momento da despedida». Mas homens como o ti Alfredo não morrem, nunca. Faltou a madrugada, substituída por um Sol radioso. Mas tudo teve expressão e significado. Valeu pela intenção valiosa e espectacular (houve quem  estivesse de muletas). Se era preciso, foi a consagração de um grande fadista. Quantos o acompanharam, e entre eles o secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Leonor Beleza, constituíram um público, sem distinção de classes ali acorrendo a acenar o seu adeus ao maior intérprete da canção, nascida não se sabe onde ecoou em vozes doridas e viciosas nas betesgas das ruelas de Lisboa. Depois, ganhou raça em gargantas aristocráticas e hoje corre mundo na névoa das «boites».
De facto, passam tristezas a desfazer-se e o vento arrasta-se, lentamente, com vagares de cansaço. Já se feriram alegrias em vibrantes risos. Uma lágrima indiscreta espreita um sorriso.
Não o disse? «Felizes os que sabem, colhendo beleza e poesia, refugiar-se em recordações purificadas da mesquinhez do mundo. Felizes os que  são sabem, colhendo inspirados pelo amor, para quem o poente é sempre uma rosa e o azul tem transparências». Teve a sua companheira — a tia Judite — ao seu lado até ao último momento. Mãe dos seus filhos teve até ao final um gesto de amor. «Felizes os que sabem andar feliz o coração no espaço infinito, entre orações, bençãos e perdão. Felizes os que sabem demorar o perfume que o amor deixou».
Lá estiveram os seu amigos. O infalível Júlio Amaro (como podia ele faltar?). E sabe uma coisa? Foi uma manifestação de ternura, neste mundo de egoísmos, cada vez mais fracas.
 Ti Alfredo, até qualquer dia..."

 

Na Revita "MAIS"  de 2 de Julho de 1982, destaca-se aqui o seu editorial e dois artigos da autoria de grandes jornalistas.

 

UM SILÊNCIO NO FADO

"Um silêncio no Fado, eis o que se fez, súbito, no último fim-de-semana.
Morrera Alfredo Marceneiro ou, se preferirem ele mudara de "poiso" para parte incerta onde, afinal, todos acabaremos por beber do mesmo copo — como ele continua, certamente a fazer.
Um silêncio no Fado, eis o que se fez, súbito no último fim-de-semana.
Um silêncio de guitarras e violas, um silêncio de gargantas vazias, um silêncio cúmplice de cantos impossíveis.
Alfredo Marceneiro "diz" agora ali mesmo, ao virar desta esquina, todos o sabemos. Por isso aqui estamos prontos a escutá-lo naqueles que o testemunharam, naqules que o viveram e conviveram.
Prontos, não a consagrá-lo (que é lá isso?) mas a guardá-lo, nosso."

"MARCENEIRO" — exemplo do fado autêntico

"Sim, é uma verdade indesmentível: os ídolos do Fado são os ídolos do povo. E Alfredo Marceneiro, o «maior» do Fado tinha em si qualquer coisa de indefinível, de boémia atrevida e palpitante a confundir-se com uma ingenuidade quase infantil. Como era ele, afinal?
Igual a si próprio: rezingão e pitoresco, com a sua madeixa preta, a testa enrugada, matendo ao pescoço o lenço de seda com um nó mal-humorado. Como cantava? Como ninguém: com voz saturada de sensibilidade, uma voz popular e instintiva intérprete como nenhuma outra, da pobreza feliz da cidade e a pesia do seu povo. No Fado, soube sempre poetizar Lisboa. E, por isso, talvez, já não pertence apenas ao Fado e aos que o admiram — é património de Lisboa.
A cidade vai perdendo as suas figuras típicas. Mas ainda tinha em Alfredo Marceneiro um exemplo do Fado autêntico, nascido não se sabe onde mas que vivia na sua alma. Ele possuía a reforma do ofício que foi durante anos um apelido. Chamava-se Alfredo Rodrigo Duarte, o «Marceneiro» para quase todos, «Ti Alfredo» para os fadistas e para os amigos. Andou a roçar os noventa e era ainda uma figura da noite lisboeta. Raros o viram de dia e sempre por ocasiões graves. De resto era a noite que o trazia, envolvendo-o nas suas sombras de mistério. E, parecia conservar nos lábios uma saudade e um beijo quando chegava e dizia: «boa-noite». Sim, era a noite quem o trazia pois é de noite que ele vivia no mundo onde ganhou fama e glória. A sua ronda diária pelas casas típicas (a terminar sempre madrugada alta) era já talvez, uma necessidade de se sentir estimado, acarinhado, vivo para os que lhe queriam bem. O Fado, a sua segunda vida foi,  afinal, a sua vida inteira."

Assina: Fernando Peres

 

E ainda na Revista Mais um artigo de Miguel Esteves Cardoso

 

Ao fadista, Alfredo Marceneiro,

bem ido e bem vindo,

por,ocasião do fim da sua primeira vida (1891 - 1982)

 

"Se, como escreveu D.H. Lawrence, a morte é a única pura e bela conclusão de uma grande paixão, então a morte do fadista Alfredo Marceneiro é, também ela, um acto de paixão.
E é um Fado.
E é uma morte.
Mas um fadista não morre como morreram os outros homens.
A morte não o surpreende nem o leva — é ele que a chama e a ela se entrega. Porque ser fadista é atiçar, cortejar, pedir a morte desde o primeiro momento em que o Fado lhe nasce na voz. Um fadista, ao morrer, vê a sua arte a atingir o ponto máximo de perfeição.
E é um Fado.
E é uma morte.
Mas um fadista não morre como morrem os outros homens.
Ele trata a morte por tu. Conhece-le os jeitos e as manhas e só pode ter por ela o respeito que se tem por aquilo que conhecemos de gingeira: é gingão com ela, mas tem-lhe amor. Ou não fosse todo o Fado um fingimento da morte e todo o fadista um fingimento da vida
E é um Fado.
E é uma morte
E é uma saudade, e um destino. Ou não fosse a saudade, como memória do bem que jamais regressará, no qual que nunca desaparecerá, uma espécie de morte. O mesmo, em vida que ver morrer. Ou não fosse o destino, como pressentimento sem recuo nem apelo, uma espécie de preparação para a morte. O mesmo, em vida, que ver-mo-nos morrer.
E é um Fado
E é uma morte.
Pela saudade, o fadista pôde saborear a morte que lhe sobe do peito pela garganta, até à boca. É talvez um amargo e doce paladar — terá concretiza algo a ver com amêndoas cruas, caroços de cereja, vinho acre.
Pelo destino, o fadista faz no peito a cama á morte e o aroma desses lençóis  sobe pela garganta até à boca e tem o cheiro de uma mortalha lavada nas lixívias pungentes da vida.
E é só um Fado.
É afinal apenas uma Morte.
Mas que sentido teria celebrá-la e senti-la senão com sua própria língua, a do Fado e da Morte ? A morte de um fadista, a morte de Marceneiro, só pode ser celebrada e sentida na voz de outro fadista. Não pode ser escrita, não consente ser lida.
Porque o Fado precisa dos seus fadistas mortos, das suas lendas e lugares. No Fado, o luto continua. Deste modo sempre. Ou há alguém que disputa a lenda e o lugar da Severa ? Ou há alguém que duvide que, como morto. Marceneiro servirá o Fado como o não pôde servir nos últimos anos da sua vida ?
E é outro Fado.
E é nenhuma Morte.
Ao morrer, Marceneiro inicia uma outra carreira no Fado. Tão bela e importante como aquela que findou. Será furiosamente lembrado, mistificado, transformado em voz. Porque é uma das bonitas qualidades do Fado: o Fado nunca esquece. Agora é que Marceneiro começará a viver, porque já está morto, reconciliado com o seu destino de homem, preparado para a sua missão de reminiscência e saudade.
E é este o verdadeiro Fado.
E é esta a verdadeira Morte.
Porque os fadistas não morrem como os outros homens.
Melhor: nem sequer morrem. Toda a vida anseiam morrer. De amor e paixão, de cio e da saudade. Sem respeitar a vida, que é coisa que vem e que passa, senão daquilo que a vida tem de transportadora. Transportadora da imagem e do desejo das coisas que se amaram, e que nela se guardam, tão brancos como no dia que nasceram,os vícios da alma, os vícios do corpo.
E é assim um bonito Fado.
E não é assim uma feia Morte.
Ou não haja alguém que ponha em causa que um fadista não é um homem que, ora em ora, canta o Fado. Não existe esse bicho: o fadista em tempo parcial. Cantar o Fado é apenas um momento na vida de um fadista, tão natural como abrir as janelas de manhã, tão normal como as tarefas do dia-a-dia. E as tarefas do noite-a-noite, as rondas, as batalhas, os amores, os vinhos, os amigos, os trabalhos, misturam-se com o canto e — nos grandes fadistas, como o Marceneiro — entram pelo canto adentro e tudo encharcam para que a voz depois dê vazâo à paixão, dê cor à dor, dê despejo ao desejo.
È isto o dito Fado.
Bendito Fado, para além da Morte.
Alfredo Marceneiro foi esse fadista em que o Fado, como mero canto, era indissociável do Fado, como mera vida. Mas se dantes não havia realidade que podia com o arroubo de lembrar — o Fado é uma perpétua reconstrução do passado, sabendo sempre que nunca o poderá reconstruir a tempo de evitar o futuro — se dantes não havia Marceneiro—homem que podia com o esplendor de Marceneiro—mito; agora, agora e durante os muitos anos que só o Fado guarda contristadamente faz enternecer, Marceneiro pertence todo ao Fado como nem ele em vida, conseguiu pertencer.
E é Fado
E deixa de ser Morte
Digamos só: Olá Alfredo Marceneiro, é bom tê-lo outra vez entre nós.

Assina: Miguel Esteves Cardoso

 

Imagem do Cortejo que acompanhou a pé, em marcha lenta, ao som das guitarras, Marceneiro até à sua sepultura

publicado por Vítor Marceneiro às 21:00
: Que Saudades avô
música: A Minha Freguiesia
21 de Março de 2014

 

 

 FADO DE ESPERAÇA E FÉ, Carlos Conde também era um poeta de esperança, virado para o futuro.

 

Carlos Conde (Trineto de Carlos Conde      Beatriz Duarte e Alfredo Duarte (Bisnetos Marceneiro)               

                                          

“È TÃO BOM SER PEQUENINO”
Letra de: Carlos Conde
Música: Corrido ou Mouraria
 
                            É tão bom ser pequenino
                            Ter pai, ter mãe, ter avós
                                     Ter esperança no destino
                                     E ter quem goste de nós
 
                                     A velhice traz revés
                                     Mas depois da meninice
                                     Há quem adore a velhice
                                     Para ser menino outra vez
                                     Ser menino que altivez
                                     De optimismo e desatino
                                     Ver tudo bom e divino
                                     Tudo esperança, tudo fé
                                     Enquanto a vida assim é
                                     È tão bom ser pequenino
 
                                     Ver tudo com alegria
                                     Sem delongas sem demoras
                                     Viver a vida numa hora
                                     Eternidade num dia
                                     Ter na mente a fantasia
                                     Dum bem que ninguém supôs
                                     Ter crença sonhar a sós
                                     Com a grandeza deste mundo
                                     E para bem mais profundo
                                     Ter pai, ter mãe, ter avós
 
                                     Ter muito enlevo a sonhar
                                     Acordar e ter carinho
                                     Ter este Mundo inteirinho
                                     No brilho do nosso olhar
                                     Viver alheio ao penar
                                     Deste orbe torpe ferino
                                     Julgar-se eterno menino
                                     Supor-se eterna criança
                                     E num destino sem esperança
                                     Ter esperança no destino

 

 

                                    

                                     Oh! Desventura, Oh! Saudade

                                     Causas da minha inconstância

                                     Dai-me pedaços de infância

                                     Retalhos de mocidade

                                     Dai-me a doce claridade

                                     Roubando-a ao tempo atroz

                                     Eu queria ter a minha voz

                                     Para cantar o meu passado

                                     E é tão bom cantar o fado

                                     E ter quem goste de nós

 

                       

 

 Alfredo Marceneiro canta

É TÃO BOM SER PEQUENINO

Letra de Carlos Conde

Música Popular

 

publicado por Vítor Marceneiro às 09:33
: Grande Homem - Grande Poeta
música: É tão bom ser pequenino
10 de Março de 2014

 

Jornal I - informação Edição fim-de-semana,integra a revista

NÓS Melancólicos Nº 46 -20/21 Março de 2010

  

Texto de Maria Ramos Silva

Fotos de José Miguel Soares

  

De avô para neto, a história é de canção. e de família. A viagem pelo ADN Marceneiro é um passeio por gerações que não esquecem o homem do lenço, do boné, do cigarro pendurado na boca com carisma e do discurso castiço. Ti Alfredo pela memória de Vítor Duarte

 

 

A plateia do extinto Solar da Hermínia tranca-se num reverente silêncio. O avô canta. O desfecho não traz surpresa. As palmas enchem a sala rendida à voz e à guitarra. A maior novidade do serão é anunciada pela boca do amigo Chico Fadista. "Mas vocês não sabem que existe uma terceira geração, aqui o Vítor também canta," O burburinho volta a perder potência e Vitó puxa dos desconhecidos galões. Ainda com as luzes em baixo, nessa passada artística em que os parentescos sucumbem às críticas sérias, o avô solta o veredicto, orgulhoso mas retorcido. "Pois, não está mau. É pena é andar a cantar a mesma coisa que eu ando a cantar há 30 anos! Arranje repertório."
Ao seu jeito sui generis concede o primeiro elogio ao neto. Outros duetos entre Vítor Duarte e o castiço companheiro do boné e do lenço se seguiriam, com o temperamento do veterano sempre a ser cozinhado em lume alto. "Aconteceu cantarmos os dois e ele interromper a meio. 'Estou cansado, já não me apetece. Esqueci-me dos versos. ‘ Quem começava? Claro, abre o avozinho.
Depois, era só agarrar." Numa actuação em Cascais, já com impressionantes 89 anos, exibe o cabelo negro integral que dispensava truques de pintura e os óculos escuros que se encaixaram na cara depois da operação às cataratas. A idosa voz que dá a deixa não vacila. O corpo hirto, falsamente negligente e distante das atenções, encosta-se à parede. Uma das mãos, escondida nos bolsos, continua a inibir movimentos desnecessários do tronco. Ti Alfredo, que o ofício de Marceneiro acabou por baptizar em pia popular, disfarça entre os restantes cinco dedos um lenço que aproxima discretamente dos cantos da boca. Um pormenor delicioso. "Colava a placa com marmelada, e esta começava a derreter!"
A vida de fadista não abundava em açúcar. A conversa do fado nem sequer vagueava pelos corredores do lar. Não valia fortunas e via a saúde empenhada pelas madrugadas fora. Uma criança lá em casa a cantar? "Nem pensar nisso. O fado, andar na noite, não dá nada", dizia. Mas pelo menos uma das etapas do percurso era canja. Canja com arroz.
A iguaria que lhe confortou o estômago durante 60 anos sempre que chegava a casa vindo da noite, partilhada com os fiéis escudeiros. "Quem o levasse encostava o carro e ia comer uma sopinha com ele. Era uma alegria poderem dizer "fui a casa do Ti Alfredo!" As fotos glamorosas dos anos 50 imortalizaram a imagem de marca: o cigarro High Life a fazer cama entre os lábios. Os posters e a caricatura mais emblemática, assinada por José Pragana, resistem na parede da casa de Vítor, no Sobral de Monte Agraço. Pelas 70 primaveras, por ordem do médico, Alfredo enterra a nicotina de vez. Morcego por sina e por gosto, passa a viver em pleno dos banhos de Lua quando se reforma do estaleiro naval, em 1945. O avozinho já leva mais de meio século nas pernas. O lenço que dá estilo ao pescoço e o boné enfiado são mais do que acessórios de moda pessoal – protegem a garganta e a cabeça que já não vão para novas, mas que continuam a frequentar o barbeiro por baixo do desaparecido Clube Ritz quando já passam das duas da matina. "Veja lá se o sol não lhe vai fazer mal", atirava o neto quando se passeavam às claras. "Sempre usou a mesma roupa de Inverno e de Verão. Mas no Inverno vestia ainda a gabardina. E usava sempre o lenço quando saía de casa. Começou a cantar com o lenço cruzado." A glória e queda de um homem contam-se ao ritmo do taxímetro. Os motoristas de praça são marco importante na sua longevidade e garantia de segurança nas incursões nocturnas. Briosos de carregar o fadista no banco de trás, desunham-se por uma viagem com Marceneiro e enterram o machado de guerra mal avistam a criatura. "Eram homens de bairro que não o deixavam sentir-se sozinho. Um dia na Rua das Taipas, às duas e tal da manhã, um táxi vê que é o Ti Alfredo. Quando pára e pergunta se quer boleia três táxis enfaixam-se uns nos outros. Começa grande discussão até verem que era ele. Ficou tudo bem." Da morada na Rua da Páscoa, em Campo de Ourique, desce à Igreja de Santa Isabel e vem a pé até ao Largo do Rato. Entra no carro e em dois tempos o conhecem, lançando um "boa noite, Ti Alfredo". "Nem punham o contador a marcar. 'Olhe, meu querido, vamos para o Bairro Alto mas vais pela Praça das Flores', pedia ele. Era para que a bandeirada não fosse pequena. Dava-lhes 20 escudos no final, mesmo que a corrida fosse só cinco." Em 1979, a ausência de réplica do condutor confere o receio do mestre. As gerações sucedem-se e com elas a memória perde forças para o anonimato completo. Já ninguém responde ao cumprimento. "Entra num táxi, diz boa noite, e nada. 'Viste? Estou lixado. ‘ Os seus antigos companheiros da noite já não existiam para o segurar." Alfredo só permanece sem sair de casa um ano antes de morrer, quando sente um fraquejar numa perna. Despede-se em Junho de 1982, com 94 anos, idade actualizada pelas buscas do neto que lhe situou o verdadeiro ano do nascimento em 1888. Vítor, que chegou há pouco do Canadá onde actuou para portugueses, recupera estas e outras biografias do fado em lisboanoguiness.blogs.sapo. pt, projecto criado em 2007 com o objectivo de tornar a capital portuguesa recordista do mundo enquanto a mais cantada. "Muitos poemas falam de uma mulher, a mulher Lisboa." Dedica-se ainda à investigação, num trajecto pelas memórias do fado e dos seus intérpretes ao longo dos anos, graças a muito know-how a partir da recordação, recapitulando a vida e obra dos "peões" do fado. "Encontro dados daqui, jornais antigos ali, pessoas que conheceram, etc. Estava lá sem saber que estava a assistir à história." Pouco se fazendo escutar, uma recalcada veia de actor latejou na família. O avô, personagem em tamanho grande já de si, chega a entrar na peça Fado, no Coliseu. Goza ainda de um breve apontamento, agora a cantar, num filme de António Lopes Ribeiro, nos anos 30. "Também acabei por não ser actor. Fiz apenas teatro na escola e na General Motors, mas mais tarde como realizador vivi um pouco esse papel. Há uma extroversão e um gosto." O gosto, agora pelo fado, ganhou força anímica entre a juventude de hoje, mercê de uma cultura linguística mais depurada. "As pessoas nunca deixaram de gostar de ouvir a guitarra, independentemente de gostar ou não de fado. Mas as letras ou não eram ouvidas ou achavam que era a história da desgraçadinha, quando esse não é o fado do Marceneiro." Só pelos 23 anos o próprio Vitó, seguidor da pop dos Shadows e dos Beatles, se deixou embalar pela canção, vencendo os preconceitos próprios da idade. "Até então era altamente contestatário. Ele discutia comigo. 'Este neto falta ao respeito ao avô! ‘ Também o picava. 'Brevemente vou ser engenheiro de máquinas', dizia-lhe eu. E ele respondia: 'Você que anda lá a estudar para engenheiro diga-me lá o que quer dizer boninas?"
"Sete colinas são teu colo de cetim Onde as casas são boninas espalhadas em jardim" (Lisboa Casta Princesa, Álvaro Leal/Raul Ferrão)
Vítor lá engolia os espinhos das flores. Com 12,13 anos, poemas como os de Henrique Rego, mais tarde classificados como "fabulosos", desatinavam a sua consciência revolucionária. "Vinha de um bairro operário em Alcântara. 'Bailar à mercê? Nunca vou bailar à mercê de ninguém! Disse logo. Foi uma grande luta e tanto que tenho bailado." Filho de uma costureira que morreu jovem, aos 25 anos, e do "fadista bailarino" Alfredo Duarte Júnior, antigo pintor de automóveis da General Motors, onde também vem a trabalhar, mandava em homens com idade para serem seus pais. Quando já se encontra na Fiat, o então gerente oficial conhece dois responsáveis pelo Hotel Eduardo VIL Pela amizade vêm a saber que é neto de Alfredo. Com 21 anos, começa então a desatar a voz para o fado, com carregada herança nas costas. "Passei a ir para o Galito, em Cascais, onde estava o Zé Inácio (*), que fora porteiro da Adega Machado, o Carlos Zel, etc. Não tinha aspecto mas tinha palheta. Nunca tinha tentado cantar e sentia o peso, o que o meu pai passara por ser filho do Marceneiro. Entrava no Bairro Alto e todos o conheciam. Lá cantei um fado sem saber que cantava." Depois da tropa gravou sozinho e com o avô. Trabalhou em laboratório de fotografia e realizou publicidade. Em 1979 produziu o filme que reuniu as três gerações de fado da família. Foi casado 27 anos com uma prima em segundo grau, com quem teve um filho, que a morte cedo levou. Da actual relação nasceram dois meninos, uma tardia quarta geração que vive o apelido com entusiasmo, entre sete bisnetos do mestre, "Tenho um jeito Marceneiro mas não sou o meu avô. Quem diz que o imito é cretino, porque é impossível imitá-lo. Agora, tenho o ADN do meu avô, é óbvio. Fecho os olhos e sei que ali o meu avô dava aquela voltinha." Vítor, com 64 anos, recorda com saudade a cultura peculiar do avó, de quem escreveu a biografia. Aquele saber à margem dos livros que se fecharam na quarta classe, de quem falava e escrevia com tento pontuado com a sua devida asneira, sem beliscar a língua e insistindo nos acentos tónicos, desafiando a fleuma dos interlocutores durante as entrevistas. Era preciso saber levar e saber escutar. O fadista não gostava de respostas sincopadas. E zelava por algum purismo. "Não sendo um homem retrógrado, no fim até era bastante progressista, nalgumas coisas era retrógrado como eu sou. Se me perguntarem hoje se o fado evoluiu, é claro que evoluiu, mas há uma evolução que vai até um determinado ponto e produção, que eu contesto. Por exemplo, quanto mais simples for tocado o célebre fado menor, à antiga, mais valor tem."
Do Bairro Alto até à Márcia Condessa, na Praça da Alegria, os argumentos ferviam entre gerações. Discutiam de tudo. "Tinha mais a ver com o meu avô do que com o meu pai. Fui criado com ele. Ensinou-me para nunca andar com nenhuma mulher do fado. Era lowprofile. Aliás, a ele nunca lhe conheceram namorada." Nem grande moléstia provocada pelo crivo da censura, ainda que as letras previamente aprovadas tivessem que andar num livrinho debaixo do braço quando ia actuar. Alfredo levava Vítor à revista e ao fabuloso circo no Coliseu, onde engrossavam a chamada claque. A vida não era fácil e com estes bilhetes dados bastava a obrigação de arrancar com as palmas. "A sua própria forma de estar no fado levou a que nunca se conseguisse fixar muito numa casa, daí que mais tarde diziam que andava às esmolas. Não era. Havia era muita gente que para o ouvir o gratificava.” Alfredo só não podia ouvir falar em grandes deslocações. "Nunca quis ir para fora de Lisboa, muito menos para fora de Portugal." Inventava histórias e mais histórias para não arredar pé. Em 1976 desafiaram-no para uma ida ao Coliseu do Porto – Ofereciam alto cachet e punham Mercedes e alojamento à disposição. "Às tantas pergunta-me quantas pessoas leva o Coliseu. 'Umas mil, Ti Alfredo.' Chamou-me aparte. 'Já viste? 200 contos, mais despesas, mesmo que os gajos queiram dar 50 gansos [escudos] para ver a minha tromba multiplica. É tanga! Depois não nos pagam.' Mil e um pretextos arranjados – Arranjadinhos como a merenda que levava consigo: uma carcaça com pastelinhos de bacalhau. Chegavam a ser dez, os comensais espontâneos que disputavam um bocadinho, só pelo prazer de provar a especialidade da mulher, a tia Judite, por quem se enamorou certo dia num baile na Fonte Santa.

(*) Na realidade José Inácio, que era um extraordinário Viola de acompanhamento de Fado, no Galito, tocava guitarra,  e à viola estava o "Pirolito da Ericeira" este sim,  tinha sido porteiro na Adega Machado, este  lapso, a que jornalista é alheia, é da minha responsabilidade pois com o entusiasmo de falar destes acontecimentos poderei tê-la induzido em erro.

 

Considero esta entrevista, na óptica do trabalho da jornalista, muito bem feita e de um rigor exemplar.  Permitam-me destacar que,  Maria Ramos Silva, no decorrer da entrevista me ia fazendo perguntas/reparos muito objectivos às minhas explicações, tendo eu feito uma observação elogiosa aos seus conhecimentos de "Marceneiro" e do Fado, respondeu-me: — Vítor, para além de outras fontes, eu sou visitante assídua dos seu blogue. Fiquei muito "orgulhoso". 

 

publicado por Vítor Marceneiro às 16:09
: Que saudades avô

O Poeta Joaquim Nogueira Marques, diz um poema "Uma goiva, um trinado" de sua autoria dedicada a

Alfredo Marceneiro.
Gravado no Restaurante Típico Timpanas, em 13 de Fevereiro de 2004 no almoço de confraternização da Associação Cultural de Fado "O Patriarca do Fado" - Homenagem a Alfredo Marceneiro, Ada de Castro e Prof. Joel Pina.

 

publicado por Vítor Marceneiro às 14:23
: Bonita Homenagem
música: Uma goiva, um trinado
07 de Março de 2014

Francisco Pinteus, Sócio Fundador e Presidente da Mesa da Assembleia Geral da A.C.F.P.F., fala de Marceneiro, figura relevante do século XX
No almoço de confraternização no Restaurante Típico O Timpanas em 23 de Fevereiro de 2014

 

publicado por Vítor Marceneiro às 15:00
: Tributo a Marceneiro
música: Marceneiro -Personagem ilustre do Século XX
03 de Março de 2014

Tributo a Alfredo Marceneiro

Medley musical 

Humberto Vicente, Armando Figueiredo e Prof. Joel Pina

 

publicado por Vítor Marceneiro às 12:18
:
música: Músicas de Marceneiro
25 de Fevereiro de 2014

 

Caricatura de "Campus", publicada pela primeira vez com autorização do autor, que é membro da Associação Cultural de Fado "O Patriarca do Fado" e que será usada nos cartões dos sócios.

É PROIBIDA A SUA REPRODUÇÃO 

Está protegida pelo "copywrite"

 

Após aprofundada investigação, posso afirmar, sem sombra de dúvidas que,  Alfredo Marceneiro na realidade nasceu  a 29 de Fevereiro de 1888, que foi ano  bissexto, mas só foi registado a 25 de Fevereiro de 1891

Com base no registo Alfredo Marceneiro, comemora-se   122 anos  do seu nascimento, mas em termos reais são na relidade 125 anos.

 

 

 

 

Se os prosélitos do Fado entenderem devotar uma longa noite à sua bandeira,  a de Alfredo Marceneiro, que seja o 25 de Fevereiro pois, sem dúvida, no ano de 1891 nasceu (foi registado) o seu mais louvado príncipe, tão igual ao Povo que com ele se confundiu amavelmente.

 

Alfredo Marceneiro canta

È TÃO BOM SER PEQUENINO

de Carlos Conde

 

publicado por Vítor Marceneiro às 00:00
: Orgulho nas origens
música: É tão bom ser pequenino
06 de Fevereiro de 2014

Alfredo Marceneiro e as luzes no Fado

 

 

 

Alfredo Marceneiro foi o responsável por, a partir de determinada altura, os fadistas passarem a cantar o fado à média luz. Na iluminação da altura (anos vinte) era usado o acetileno que não permitia a diminuição progressiva da luz, razão pela qual ele sugeriu a ideia de acender umas velas para se cantar o Fado.

Eis pois o episódio que Alfredo  frequentemente recordava:

"Todos os anos, para celebrar a abertura da água-pé, o Rogério Estivador organizava na sua Quinta da Paiã, uma grande e regada patuscada, com a festança a terminar invarialvelmente com uma sessão de fados sendo os fadistas convidados pelo Chico Carreira. Rogério Estivador, que  não era grande apreciador de fado, comentava sempre que para ele os fadistas cantavam todos da mesma maneira. Então o Chico Carreira, perguntou-lhe se já ouvira cantar o Alfredo Marceneiro. O Rogério disse-lhe que não e que nem sequer estava interessado, tendo o Chico ripostado:

— Hoje veio comigo o tal Marceneiro e podes crer que  quando o ouvires,  hão-de chegar-te chegar -te as lágrimas aos olhos.

O Rogério largou uma gargalhada. Ele chorar por causa de um fadista? Ora, o Chico não estava bom da cabeça.

Quando terminou a patuscada, já noite alta, os fadistas começaram a cantar e quando chegou a vez do Alfredo Marceneiro, este, que não estava muito inspirado, cantou um fado qualquer, pouco propício a fazer chorar fosse quem fosse.

O Rogério zombou, dirigindo-se ao Chico Carreira:

— Então este é que é o tal que me ia fazer chorar?

Chico Carreira foi ter com o Alfredo e contou-lhe tudo. Alfredo encheu-se de brios, levantou-se e dirigindo-se aos comensais disse:

— Vou cantar, dedicando ao dono da casa, Senhor Rogério, mais um fado. A letra que vou cantar é da autoria do grande poeta popular Henrique Rêgo e tem como tema o sentimento que mais prezo: O Amor de Mãe. Peço a todos o máximo silêncio e agradecia que as luzes fossem apagadas:

— As luzes? — perguntou o dono da casa — Então ficamos ás escuras?

— Não — disse Marceneiro — Agradecia que mandasse vir umas velas e que as espetassem em gargalos de garrafas.

Assim se fez. A iluminação,  a acetileno, foi substituída pela luz trémula e difusa das velas e, no meio do maior silêncio, Alfredo Marceneiro entoou, com sentimento profundo, os primeiros versos do fado:

 

"Ó  ÁGUIA!"

Se para ser Homem, Jesus

Precisou que uma Mulher

O desse á Luz neste Mundo

O Amor de Mãe é a Luz

Que torna o nosso viver

Num Hino de Amor Profundo

 

E prosseguiu sempre no mesmo tom dolente a cantar este lindo poema de Henrique Rêgo com música do Fado Bacalhau:

 

Ó águia que vais tão alta

Num voar vertiginoso

Por essas serras d´além

Leva-me ao céu, onde tenho

A estrela da minha vida

A alma da minha mãe

 

              Loucos sonhos juvenis

              Fervilham na minha mente

              Que me fazem ficar chorando

              Quando tu águia imponente

              Te vejo tranpor voando

              As serras e os alcantis

 

Quando te vejo voar

Pelo vasto firmamento

Sobre as campinas desertas

Com profundo sentimento

Tu em meu peito despertas

Sonhos que fazem chorar

 

                Ó velha águia altaneira

                Vem aliviar-me, vem

                Do mal que me vem o ferir

                Vê se ao céu, me transportas

                Para de beijos cobrir

                A alma de minha mãe

 

Quando Alfredo acabou o fado, Rogério Estivador não resistiu: grossas lágrimas lhe correram cara abaixo, tendo num impulso irresistível correr a abraçá-lo.

— Muito bem amigo Alfredo, isto é que é cantar com sentimento, isto é que é Fado."

E foi assim que naquela noite Alfredo Marceneiro deu início à tradição de diminuir as luzes quando se canta o Fado.

 

 © Vítor Duarte Marceneiro

publicado por Vítor Marceneiro às 21:00
: Saudades
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Busto de Alfredo Marceneiro por Dr. Francisco Faria Pais Busto de Alfredo Marceneiro por Dr. Francisco Faria Pais